sexta-feira, 9 de outubro de 2009

número 2



- Preciso ir ao banheiro!
- Não podemos parar agora. Agüente firme.
- Não da mais. Já está vazando..

Toda viagem é a mesma coisa. O ônibus começa a andar, e Débora já pede para ir ao banheiro. Alega que não pode segurar. Os amigos reclamam, dizendo que é ela que não para de beber água. A briga já se estende por anos, enquanto a incontinente Débora sofre com sua bexiga dilatada.
Por motivos de segurança, o banheiro do ônibus permanece sempre trancado. A experiência diz que é melhor assim. Infelizmente as pessoas não respeitam o aviso que diz: “favor não defecar”.

- Já disse que o problema é esse aviso. Ninguém entende!
- O que você sugere?
- Algo mais direto: Favor não evacuar!

Mesmo as pessoas que utilizavam o banheiro apenas para fazer xixi, foram terminantemente proibidas de utilizar o cubículo.

- Mas é só xixi...
- Não importa. Espere até o posto.
- Qual é o perigo?
- Acredite... Você não vai querer. O Marcelo disse que ia fazer xixi, e eu dei a chave. Quando ele saiu, achei que o banheiro é quem tinha feito xixi em cima dele.

O balanço do ônibus faz com que até mesmo o campeão mundial de tiro ao alvo acerte o espelho. Nada fica ileso. A problemática é simples: ou você segura, ou se segura. É praticamente impossível fazer os dois ao mesmo tempo. O jeito é esperar até o posto mais próximo, onde é possível equilibrar-se e fazer a mira de longe.
Na última viagem, tiveram que parar no meio da noite, na estrada. Roberto não agüentava mais. Culpava o acarajé. Segurou a respiração e correu para o mato, onde se acocorou em busca da melhor posição. Na mão direita, o papel higiênico. Na esquerda, o iPhone, que além de iluminar o caminho, serviria como entretenimento durante o trabalho de parto, que a julgar pelas contrações, seria cesariana.
Ao voltar para o ônibus, suado, Roberto carregava o mesmo olhar triste de Napoleão, após a batalha nos campus de Waterloo. Hoje, calejado pela experiência, Roberto carrega consigo um kit.

- E o que tem aí?
- Papel, caneta e um revólver!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

intimidade perdida


Acharam um sutiã no ônibus. A histeria foi geral.

- Um sutiãããã!
- O quê? De quem?
- Não sei, mas estava aqui no meu banco.

A peça do vestuário íntimo feminino foi encontrada por Romeu. Justo ele, que era famoso por suas habilidades discursivas. Sua boa retórica já lhe havia conferido o nem um pouco importante título de "chavequeiro" da turma. As más línguas afirmavam, supostamente, que Romeu era muito bom no discurso direto. Levava as meninas inocentes para os últimos bancos, onde fazia uma criteriosa análise morfológica. Isso até aparecer um adjunto adnominal, e tornar o verbo intransitivo. Nesses casos, nem a oração resolvia.

Mas o fato é que dessa vez, Romeu tinha ido longe demais. Um sutiã? Isso já era caso de polícia. Ou de pastor. O problema era que, se onde há fumaça, há fogo, onde há sutiã...

Imediatamente deram início a uma busca detalhada por outras peças íntimas. Em vão. O máximo que conseguiram foi um cinto, que era um indício, mas não provava nada. Precisavam de mais evidências. Quem sabe uma meia.

- O que uma meia provaria?
- Uma meia, nada. Já uma meia-calça...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

teoria de conspiração



Assisti "anjos e demônios", novo filme baseado no romance de Dan Brown. Incrível! Tanto em roteiro como em execução. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a forma como a igreja católica é pintada no longa.

Sei que a primeira impressão é que eles vao achincalhar o Vaticano, mostrando uma série de supostas conpirações que acontecem por baixo das batinas sagradas da santa igreja. Mas, ao longo do filme, o que pude ver foi uma igreja extremamente organizada (seja para o bem, ou para o mal), com líderes corrúptos, é verdade, mas também com muitos homens preocupados em "atender as vontades de Deus", e com as melhores intenções para com a humanidade. Enfim, vi uma igreja capaz de liderar um movimento mundial para a paz, prosperidade e felicidade.

Calma, continuo adventista. Para aqueles que me conhecem bem e, consequentemente, meu sarcasmo, já entenderam. Trata-se, na minha opinião, de um fortalecimento da santa igreja, disfarçado de polêmica. É como no primeiro caso, no primeiro filme de Dan Brown, "O Código Da vince", onde a ficção quase tornou-se realidade, de tanto que as pessoas falaram.

Neste caso, pode-se ver uma igreja dividida entre o bem e o mal. Há os que querem o poder, mas há também os que lutam pela verdade. E como em Hollywood tudo termina bem, a igreja vence, o mal é derrotado, e nasce um novo Papa, puro e sagrado, representante de Deus na terra.

Já ouviram essa história?

Não se assustem se algum dia um escândalo terrível atingir o Vaticano, e o Papa, ou um novo Papa, resurgir (nao literalmente, rs) das trevas, ou da luz, para a glória, reconquistando o poder político/eclesiástico que teve na idade média!

Amém! (rs)


p.s. nossa, soou conspiratório! Mas não é esse, o objetivo de Dan Brown?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

tentando

Poucas coisas são tão difícies como começar uma crônica. Você toma posição à frente do computador, olha a tela branca e perde completamente a inspiração. É a oitava vez que reescrevo o primeiro parágrafo. Se está lendo isso, é porque este sobreviveu..

segunda-feira, 11 de maio de 2009

retrato


A menina está sozinha, à noite, sentada num banquinho no vale do Anhangabaú. O vento sopra gelado, tentando apagar as pequenas fogueiras que servem de abrigo para os que não o têm. O vestido esconde muito pouco de seu corpo, e a semelhança mórbida com o roxo de seus lábios contrasta com a blusa que tem em mãos, como se estivesse ali num ritual pagão de auto-flagelo.


De longe, um mendigo a observa curioso. Claramente se trata de um caso crônico de problema psicológico, uma vez que a moça não aparenta falta de recursos financeiros e, sendo assim, poderia escolher, na visão do mendigo, um local mais apropriado, talvéz mais quente, ou menos úmido, ou quem sabe um restaurante com boa comida, para chorar suas mágoas. Enquanto se perde a imaginar qual o melhor sítio para a dor de coração, a menina se levanta.


O seu nome, a quem venha interessar, é Amanda, e a razão da escassez de pano deve-se ao fato da menina pertencer, como já observara bem o mendigo, a uma família de classe média paulistana, o que demostra sua facilidade em acompanhar a moda que, neste período do ano, quando o inverno vai alto, usa saias curtas. Seu choro, pelo contrário, apõe-se a boa educação que o dinheiro de seu pai lhe proporcionou. Não que o chorar seja um ato reprovável, o que realmente não é, uma vez que os grandes nobres da história derramaram muitas lágrimas, porém a motivação é detestável.


Amanda, triste protagonista dessa tragédia, chora seus pecados. Ainda não sabe bem se por remorso ou arrependimento. Treme de frio e de medo. Frio da solidão onde está condenada a viver, para seu próprio bem. Medo de não ser capaz de reparar o erro, não o que cometeu, pois esse é irremediável, mas o erro de ser capaz de cometer.


Pena, principalmente para os mais curiosos, não nos foi revelado o pecado, nem mesmo o padre com quem se confessou no dia seguinte. Tudo o que sabemos é que Amanda está estudando moda, e seu sonho é abrir uma confecção de blusas para frio intenso.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

papo cabeça


Eu sei que não vou me fazer acreditar, mas tive uma conversa séria com o Bin Laden na última sexta-feira santa. Ele me contou, de forma melancólica, como arquitetou o plano do onze de setembro, de sua caverna secreta, no noroeste do Afeganistão. Abriu seu coração. Confidenciou-me segredos. Quem imaginaria que Bin Laden tem medo de escuro? Ou mesmo que é chocólatra? Ou ainda que cultiva couves silvestres, na hortinha dos fundos de seu quintal?

O fato é que pude conhecer o verdadeiro Bin Laden. O homem por de trás da barba. O terrorista por de trás do pop-star mundial que se tornou. Fiquei surpreso com seu senso de humor. Humor negro, claro. Revelou-me que sente saudades dos velhos tempos. Quando as pessoas explodiam bombas pela Europa e ninguém reclamava. Sim, poucos sobreviviam. Disse ter saudades do Brasil. Rio de Janeiro, mais precisamente. Sente-se à vontade por lá. "O clima é familiar e relaxante. Além de um ótimo lugar para se fazer amigos" - afirmou.

Porém a parte mais intrigante da conversa foi quando eu o questionei sobre o Saddam Hussein. Perguntei qual era a ligação entre os dois. Se possuíam algum tipo de amizade, parentesco, rivalidade. Seu semblante virou-se do avesso, se é que isso é possível. Aquele sorriso maroto, típico dos terroristas, transformou-se em ira. Indignou-se com o fato de perseguirem e matarem seu companheiro de barbáries, só por causa de umas besteirinhas quaisquer.

- Besteirinhas? Ele matou milhares de civís inocentes, distribuindo morte e dor.

- O Bush também.

- Torturou pessoas em troca de informações sigilosas.

- O Bush também.

- Usou seu poder de forma abusiva.

- O Bush também.

- Provocou guerras sem motivos, para benefício próprio!

- O Bush também.

- Prendeu pessoas sem julgamento. Um crime contra os direitos humanos.

- O Bush também.

- Fraudou eleições, comprou votos e ameaçou inimigos.

- O Bush também!

- Usou seu poderio militar para invasão de território.

- Bush também.

- Foi um dos principais responsáveis pela disseminação do terrorismo no mundo.

- O Bush também!

- Não permitiu a entrada do Mc Donald's em seu país...

- Ai ele vacilou!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

nas nuvens



A voz misteriosa soou como uma prostituta sussurrando ao seu ouvido.
- Atenção, senhores passageiros. O voô 294 com destino a Nova York partirá dentro de vinte minutos.
Três malas, uma bolsa de colo e muito suor. Nenhuma paciência. O homem está correndo pelo aeroporto. Saiu de casa com três horas de antecedência, que a marginal transformou em uma hora de atraso. Por sorte, o avião também se atrasou, devido a chuva que castiga a cidade de São Paulo.

A fila do check-in é interminável. Por sorte, ouve-se um grito feminino pedindo que os passageiros de voôs internacionais dirijan-se ao guichê 17. Cinco passos apressados e João é o primeiro. Coloca cuidadosamente as malas sobre a balança, na inútil esperança de que a gentileza diminua os quilos a mais.

- Senhor, sua mala está 3kg acima do peso!

João abre a mala e retira de lá cinco quilos de farinha de mandioca, um presente infeliz para seu amigo nordestino, que mora em Boston. A mulher se assusta, quase chama a segurança, quando o homem empurra a mala para a esteira de bagagens. Num movimento felino, a atendente da um salto sobre a cadeira e cola a etiqueta de embarque na mala, que segundos depois, desaparece no buraco negro.

Duzendos metros separam João do portão de embarque. Agarrado em sua pasta, dispara pelo saguão como um quater-back nos play-offs finais do futebol americano. Subtamente, percebe que está sendo seguido por um cão-guia, que corre desesperadamente atrás dele, arrastando seu dono. Apesar na situação inusitada, João não se dá por vencido. Acelera!

Ao entrar no avião, não sente suas pernas. Está exausto e convencido de que é impossível competir com um animal de quatro patas. Por sorte o canino o acertou pela retaguarda, onde estava a carteira. Não houve danos físicos, só materiais. João acomoda-se feliz na poltrona apertada, refletindo sobre os fatos. Lembra-se do famoso ditado: "vão-se os instrumentos, ficam-se as bandas"!!!

Sob forte chuva, o 737 levanta voô. Em menos de dois minutos já estão acima das nuvens carregadas. Pode-se ver o sol, brilhando forte no horizonte. O comandante explica que terão uma viagem tranquila. Após algumas horas de voô, almoço.

João está ansioso e faminto. Na pressa da saída, não teve tempo para o desjejum. Ao comprar a passagem já deixou especificada a sua preferência pela comida vegetariana.

- O que é isso?
- Seu almoço, senhor - respondeu a comissária, rindo secretamente.
- Tudo bem. Mas o que é isto, especificamente?
- Salada de acelga, cenoura e rabanetes.
- E esse negócio verde?
- Vagem, senhor. Algo mais?
- Eu que pergunto. Há algo mais para comer? Digo, fora a vagem?
- Mas foi o senhor quem pediu vegetariano.
- Sim, mas eu não trouxe meu coelho. Qual é o seu nome?
- Florinda. O que o senhor gostaria de comer?
- Biscoitos!


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vamp

Era a quadragésima trigésima nova convenção mundial dos vampiros. Todos estavam excitadíssimos com a presença já confirmada de seu maior ídolo, o Conde Vlad. Após o desaparecimento de Drácula, no início dos anos sessenta, a comunidade hematófoga clamava por uma liderança que a conduzisse ao domínio total da humanidade. Ainda mais após os boatos de que dois ratinhos do oeste dos Estados Unidos já haviam obtido algum sucesso.

Este ano a convensão acontecia no Brasil, mais específicamente, no Rio de Janeiro. Foi marcada para o mês de julho, afim de não expor os vampiros europeus a temperaturas muito altas. Haviam sugadores de todos os cantos do mundo. A velha guarda romena, berço dos primeiros vampiros, chegou no mesmo voô. Da transsilvânia, lar do mundialmente famoso Conde Drácula, não veio ninguém. Diziam-se desmoralizados por seu morcego-mor.

A imprensa marrom publicou algumas fotos comprometedoras de Drácula caminhando tranquilamente ao lado de Van Halsing, no Central Park, em NY. A nota dizia: "Drácula, 3472, à direita, aproveita o domingo de sol para desfilar sua nova capa preta à lá Neo, ao lado de seu ex-desafeto, Van Halsing, 92, que arrasa com seu estilo vintage." De mãos dadas e, nitidamente envolvidos num clima afetivo, o suposto casal divide uma casquinha do Mc Donald's, para desespero Burger King, que perde a publicidade.

A contribuição tupiniquim para o evento era, além de Vlad, o ainda pouco valorizado Chupa-Cabra. Este último lutava há anos pelo reconhecimento da classe dentuda. Em vão. Os vampiros recusavam-se a creditá-lo com o título de Membro da Cúpula. Sendo assim, era lhe permitido apenas sugar o sangue viscoso, e nem tão gostoso, de animais oriundos da caatinga brasileira.

A meia noite de sexta-feira, dia treze de março de 2009, os vampiros iniciaram sua assembléia, sob o céu risonho e límpido da capital fluminense. Na pauta, discuções sindicais. Os vampiros exigem um plano de saúde que inclua tratamento dentário.

A coisa começava esquentar quando alguém, providencialmente, sugeriu:
- Vamos lá pra casa, assistir um filme?
- Qual?
- Teatro dos Vampiros!
- Demorou..


terça-feira, 14 de abril de 2009

Paraíso Perdido



A mulher, curiosa, comeu a maçã. O Homem, apaixonado, caiu e foi fadado a viver de seu trabalho. Adão e Eva foram os primeiros humanos a experimentar o matrimônio. Sempre me perguntei como teria sido.

- Morrr, vem aqui!
- Agora não posso, gata.
- Gata? O que é isso?
- É o nome que eu darei para este leãozinho.
- Para de trabalhar um pouco. Eles não vão sair correndo. Você tem a eternidade pra dar nome a esses bichos. Fica aqui comigo.
- Não posso. Quero terminar pelo menos esses aqui, ainda hoje.
- Você ainda não se cansou disso?
- Paca!
- Paca o quê?
- Paca! Vou chamar esse aqui de Paca. O que você acha?
- Acho que eu vou virar uma Arara se você não vier aqui agora.
- Já vou, já vou. Só mais esses dois.
Após o pecado, as coisas se complicaram no casamento. Vieram os filhos. Eva engordou. Seus seios, antes grandes e firmes, agora balançam cabisbaixos, como quem procura uma lente de contato perdida. Adão ainda é viríl. Passa o dia inteiro no campo, carpindo, cultivando a terra e fugindo dos animais que ele mesmo deu nome.

Eva cuida os filhos, faz a comida, varre a casa, alimenta o cachorro e, quando da tempo, estuda inglês. E assim os dias iam passando, com todos ocupados com seus afazeres. Cada um cuidando de seu próprio umbigo que, de fato, não tinham.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Cantor de Igreja



O homem segura, trêmulo, o microfone. Já fizera isso tantas vezes, mas sempre fica nervoso. Afinal, o público nunca é o mesmo. Pergunta-se porque escolheu aquela música. Jamais conseguiu a performance ideal. É muito aguda pra ele. Mas agora já foi. A música já começou. A plateia o observa atentamente, como se esperasse um único vacilo, para então, cair na gargalhada.

A introdução, que nos ensaios parecia infinita, acaba em dois compassos. De repente, depara-se com um problema prático: qual era mesmo a primeira palavra da música? Pensa em cochichar baixinho para alguém próximo, perguntando a letra, mas já não há tempo suficiente. A deixa já foi. Perdeu a entrada. Mas tudo bem, a música é lenta. Ele pode perfeitamente retardar a entrada. Depois dará uma corridinha disfarçada para alcançar o andamento e pronto. Já viu tantos cantores fazerem isso, e ninguém repara. Alguns acham até bonito. Dizem ser charmoso. Não importa. Eles entram depois, mas entram com a palavra certa. "Qual era a palavra? Que coisa!". A situação piora. Um gordinho na primeira fileira percebe seu nervosismo e começa a sorrir maldosamente.

- Amor! Era amor! - pensa ele. - Ou pelo menos tinha a ver com amor. Amor fraternal, maternal, platônico.. que amor que era? Mas e depois de amor? Casamento? Não faz muito sentido. Não deve ser amor. O amor nunca me deixaria numa situação dessas.

- Composta.. era uma palavra composta! Algo do tipo: ajuda-me, salva-me, tira-me, segunda-feira, beija-flor, guarda-roupa... aaaaaaaahh!

Começa a pensar em algumas alternativas. Quem sabe inventar uma letra na hora? É arriscado, mas pode funcionar. Mas, que letra? Já não está lembrando da letra que sempre cantou, que dirá uma que nunca ouviu. Desiste. De repente pedir à congregação para que cante junto com ele. A igreja pronuncia as primeiras palavras, ele refresca sua mente, todos participam e ficam felizes. Lembra-se então que é a primeira vez que vai àquela igreja, e que dificilmente alguém conhecerá a canção.


Finalmente, chega à conclusão de que a melhor saída é jogar-se no chão, fingindo uma parada cardíaca. Quem sabe após retorcer-se e babar, viriam à tona as primeiras palavras? Caso não lembrasse, iria direto para o hospital, e nunca mais voltaria ali. Quando já se preparava para sair correndo, um raio, seguido por um apagão!

O som parou de funcionar, deixando-o sem a amplificação necessária para o alcance das últimas fileiras. Um típico "uuuuuuuuhh" foi dado pelos presentes, evidenciando a presença de estudantes dentre os espectadores. O play-back parou com a falta de energia. Alguém gritou lá do fundo que a luz iria voltar em instantes.

Após alguns minutos às escuras, a luz se faz presente. Todos olham envergonhados para o palco. O pastor vai até o cantor pedindo desculpas pelo ocorrido.

- Perdão. O raio nos pegou de surpresa.

- Que isso, pastor. Essas coisas acontecem - respondeu, tentando esconder o alívio enquanto limpava o suor.

- Peço desculpas, mas nosso aparelho de som queimou. Um fusível. Você pode imaginar? Não, ele não podia imaginar! Porém, tratava-se de uma igreja. Nada mais natural que um milagre, pensou, enquanto jurava a si mesmo nunca mais cantar em público.

- Mas você não veio de tão longe para não cantar. Nós daremos um jeito de...

- Claro! Alguém tem um hinário?!

terça-feira, 7 de abril de 2009

esperando na janela


A janela aberta permite que entre o vento gelado da madrugada. O quarto escuro, iluminado apenas pelo azul da televisão, tem poucos móveis. Uma cama desarrumada, uma cadeira de madeira onde repousa um despertador e um par de chinelos. Na porta, a figura estática de um homem.



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Da janela, observa a cidade. Tantas luzes, tantos sons, tanta gente. O suor escorre pelo rosto quente, contrastando o frio da garoa que cai, lá fora. Olha para a porta. Não há ninguém lá. Calça os chinelos, joga-se dentro de um roupão, e vai até a cozinha. Água! Precisa de água.



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Desliga a tv e senta-se na cama. "O celular!". Não. Não ligou. A madrugada vai alta, e não consegue dormir. Abre um livro, outro, outro. Olha-se no espelho. Abre o guardarroupas. Experimenta isso, aquilo, imagina-se dançando. Fica nu.



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Vai até o armário e procura o termômetro. "Devo estar com febre, não é possível". Não está. Abre o registro e deixa a água cair. Quente, afinal, não está tão desesperada assim. Deita-se na cama, molhada. A chuva parou, e pode-se ver a lua. Pega o celular. "Ligo?", pergunta-se. Não!



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Um pulo assustado o tira da cama. Sete horas. Uma mensagem: "Pensei em você a noite toda".



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O telefone toca. "Alô, E aí, Não tive coragem de ligar, Ai ai ai."




segunda-feira, 6 de abril de 2009

o início de tudo






Dizem que todas as coiasa têm um início. Pois bem. Este é o início de minhas aventuras no mundo das atualizações diárias, ou quase isso.


Aqui você vai encontrar crônicas sobre assuntos diversos, comentários sobre o que rola no meio in&out-telectual, críticas de música, cinema e arte. Sim, claro, tudo com uma boa dose de sarcasmo.


Obviamente, tudo dependerá do meu humor, que normalmente é bom, minha paciência, que é razoável, e minha disposição, que não é.


Entre, sinta-se a vontade!