quinta-feira, 16 de abril de 2009

nas nuvens



A voz misteriosa soou como uma prostituta sussurrando ao seu ouvido.
- Atenção, senhores passageiros. O voô 294 com destino a Nova York partirá dentro de vinte minutos.
Três malas, uma bolsa de colo e muito suor. Nenhuma paciência. O homem está correndo pelo aeroporto. Saiu de casa com três horas de antecedência, que a marginal transformou em uma hora de atraso. Por sorte, o avião também se atrasou, devido a chuva que castiga a cidade de São Paulo.

A fila do check-in é interminável. Por sorte, ouve-se um grito feminino pedindo que os passageiros de voôs internacionais dirijan-se ao guichê 17. Cinco passos apressados e João é o primeiro. Coloca cuidadosamente as malas sobre a balança, na inútil esperança de que a gentileza diminua os quilos a mais.

- Senhor, sua mala está 3kg acima do peso!

João abre a mala e retira de lá cinco quilos de farinha de mandioca, um presente infeliz para seu amigo nordestino, que mora em Boston. A mulher se assusta, quase chama a segurança, quando o homem empurra a mala para a esteira de bagagens. Num movimento felino, a atendente da um salto sobre a cadeira e cola a etiqueta de embarque na mala, que segundos depois, desaparece no buraco negro.

Duzendos metros separam João do portão de embarque. Agarrado em sua pasta, dispara pelo saguão como um quater-back nos play-offs finais do futebol americano. Subtamente, percebe que está sendo seguido por um cão-guia, que corre desesperadamente atrás dele, arrastando seu dono. Apesar na situação inusitada, João não se dá por vencido. Acelera!

Ao entrar no avião, não sente suas pernas. Está exausto e convencido de que é impossível competir com um animal de quatro patas. Por sorte o canino o acertou pela retaguarda, onde estava a carteira. Não houve danos físicos, só materiais. João acomoda-se feliz na poltrona apertada, refletindo sobre os fatos. Lembra-se do famoso ditado: "vão-se os instrumentos, ficam-se as bandas"!!!

Sob forte chuva, o 737 levanta voô. Em menos de dois minutos já estão acima das nuvens carregadas. Pode-se ver o sol, brilhando forte no horizonte. O comandante explica que terão uma viagem tranquila. Após algumas horas de voô, almoço.

João está ansioso e faminto. Na pressa da saída, não teve tempo para o desjejum. Ao comprar a passagem já deixou especificada a sua preferência pela comida vegetariana.

- O que é isso?
- Seu almoço, senhor - respondeu a comissária, rindo secretamente.
- Tudo bem. Mas o que é isto, especificamente?
- Salada de acelga, cenoura e rabanetes.
- E esse negócio verde?
- Vagem, senhor. Algo mais?
- Eu que pergunto. Há algo mais para comer? Digo, fora a vagem?
- Mas foi o senhor quem pediu vegetariano.
- Sim, mas eu não trouxe meu coelho. Qual é o seu nome?
- Florinda. O que o senhor gostaria de comer?
- Biscoitos!


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vamp

Era a quadragésima trigésima nova convenção mundial dos vampiros. Todos estavam excitadíssimos com a presença já confirmada de seu maior ídolo, o Conde Vlad. Após o desaparecimento de Drácula, no início dos anos sessenta, a comunidade hematófoga clamava por uma liderança que a conduzisse ao domínio total da humanidade. Ainda mais após os boatos de que dois ratinhos do oeste dos Estados Unidos já haviam obtido algum sucesso.

Este ano a convensão acontecia no Brasil, mais específicamente, no Rio de Janeiro. Foi marcada para o mês de julho, afim de não expor os vampiros europeus a temperaturas muito altas. Haviam sugadores de todos os cantos do mundo. A velha guarda romena, berço dos primeiros vampiros, chegou no mesmo voô. Da transsilvânia, lar do mundialmente famoso Conde Drácula, não veio ninguém. Diziam-se desmoralizados por seu morcego-mor.

A imprensa marrom publicou algumas fotos comprometedoras de Drácula caminhando tranquilamente ao lado de Van Halsing, no Central Park, em NY. A nota dizia: "Drácula, 3472, à direita, aproveita o domingo de sol para desfilar sua nova capa preta à lá Neo, ao lado de seu ex-desafeto, Van Halsing, 92, que arrasa com seu estilo vintage." De mãos dadas e, nitidamente envolvidos num clima afetivo, o suposto casal divide uma casquinha do Mc Donald's, para desespero Burger King, que perde a publicidade.

A contribuição tupiniquim para o evento era, além de Vlad, o ainda pouco valorizado Chupa-Cabra. Este último lutava há anos pelo reconhecimento da classe dentuda. Em vão. Os vampiros recusavam-se a creditá-lo com o título de Membro da Cúpula. Sendo assim, era lhe permitido apenas sugar o sangue viscoso, e nem tão gostoso, de animais oriundos da caatinga brasileira.

A meia noite de sexta-feira, dia treze de março de 2009, os vampiros iniciaram sua assembléia, sob o céu risonho e límpido da capital fluminense. Na pauta, discuções sindicais. Os vampiros exigem um plano de saúde que inclua tratamento dentário.

A coisa começava esquentar quando alguém, providencialmente, sugeriu:
- Vamos lá pra casa, assistir um filme?
- Qual?
- Teatro dos Vampiros!
- Demorou..


terça-feira, 14 de abril de 2009

Paraíso Perdido



A mulher, curiosa, comeu a maçã. O Homem, apaixonado, caiu e foi fadado a viver de seu trabalho. Adão e Eva foram os primeiros humanos a experimentar o matrimônio. Sempre me perguntei como teria sido.

- Morrr, vem aqui!
- Agora não posso, gata.
- Gata? O que é isso?
- É o nome que eu darei para este leãozinho.
- Para de trabalhar um pouco. Eles não vão sair correndo. Você tem a eternidade pra dar nome a esses bichos. Fica aqui comigo.
- Não posso. Quero terminar pelo menos esses aqui, ainda hoje.
- Você ainda não se cansou disso?
- Paca!
- Paca o quê?
- Paca! Vou chamar esse aqui de Paca. O que você acha?
- Acho que eu vou virar uma Arara se você não vier aqui agora.
- Já vou, já vou. Só mais esses dois.
Após o pecado, as coisas se complicaram no casamento. Vieram os filhos. Eva engordou. Seus seios, antes grandes e firmes, agora balançam cabisbaixos, como quem procura uma lente de contato perdida. Adão ainda é viríl. Passa o dia inteiro no campo, carpindo, cultivando a terra e fugindo dos animais que ele mesmo deu nome.

Eva cuida os filhos, faz a comida, varre a casa, alimenta o cachorro e, quando da tempo, estuda inglês. E assim os dias iam passando, com todos ocupados com seus afazeres. Cada um cuidando de seu próprio umbigo que, de fato, não tinham.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Cantor de Igreja



O homem segura, trêmulo, o microfone. Já fizera isso tantas vezes, mas sempre fica nervoso. Afinal, o público nunca é o mesmo. Pergunta-se porque escolheu aquela música. Jamais conseguiu a performance ideal. É muito aguda pra ele. Mas agora já foi. A música já começou. A plateia o observa atentamente, como se esperasse um único vacilo, para então, cair na gargalhada.

A introdução, que nos ensaios parecia infinita, acaba em dois compassos. De repente, depara-se com um problema prático: qual era mesmo a primeira palavra da música? Pensa em cochichar baixinho para alguém próximo, perguntando a letra, mas já não há tempo suficiente. A deixa já foi. Perdeu a entrada. Mas tudo bem, a música é lenta. Ele pode perfeitamente retardar a entrada. Depois dará uma corridinha disfarçada para alcançar o andamento e pronto. Já viu tantos cantores fazerem isso, e ninguém repara. Alguns acham até bonito. Dizem ser charmoso. Não importa. Eles entram depois, mas entram com a palavra certa. "Qual era a palavra? Que coisa!". A situação piora. Um gordinho na primeira fileira percebe seu nervosismo e começa a sorrir maldosamente.

- Amor! Era amor! - pensa ele. - Ou pelo menos tinha a ver com amor. Amor fraternal, maternal, platônico.. que amor que era? Mas e depois de amor? Casamento? Não faz muito sentido. Não deve ser amor. O amor nunca me deixaria numa situação dessas.

- Composta.. era uma palavra composta! Algo do tipo: ajuda-me, salva-me, tira-me, segunda-feira, beija-flor, guarda-roupa... aaaaaaaahh!

Começa a pensar em algumas alternativas. Quem sabe inventar uma letra na hora? É arriscado, mas pode funcionar. Mas, que letra? Já não está lembrando da letra que sempre cantou, que dirá uma que nunca ouviu. Desiste. De repente pedir à congregação para que cante junto com ele. A igreja pronuncia as primeiras palavras, ele refresca sua mente, todos participam e ficam felizes. Lembra-se então que é a primeira vez que vai àquela igreja, e que dificilmente alguém conhecerá a canção.


Finalmente, chega à conclusão de que a melhor saída é jogar-se no chão, fingindo uma parada cardíaca. Quem sabe após retorcer-se e babar, viriam à tona as primeiras palavras? Caso não lembrasse, iria direto para o hospital, e nunca mais voltaria ali. Quando já se preparava para sair correndo, um raio, seguido por um apagão!

O som parou de funcionar, deixando-o sem a amplificação necessária para o alcance das últimas fileiras. Um típico "uuuuuuuuhh" foi dado pelos presentes, evidenciando a presença de estudantes dentre os espectadores. O play-back parou com a falta de energia. Alguém gritou lá do fundo que a luz iria voltar em instantes.

Após alguns minutos às escuras, a luz se faz presente. Todos olham envergonhados para o palco. O pastor vai até o cantor pedindo desculpas pelo ocorrido.

- Perdão. O raio nos pegou de surpresa.

- Que isso, pastor. Essas coisas acontecem - respondeu, tentando esconder o alívio enquanto limpava o suor.

- Peço desculpas, mas nosso aparelho de som queimou. Um fusível. Você pode imaginar? Não, ele não podia imaginar! Porém, tratava-se de uma igreja. Nada mais natural que um milagre, pensou, enquanto jurava a si mesmo nunca mais cantar em público.

- Mas você não veio de tão longe para não cantar. Nós daremos um jeito de...

- Claro! Alguém tem um hinário?!

terça-feira, 7 de abril de 2009

esperando na janela


A janela aberta permite que entre o vento gelado da madrugada. O quarto escuro, iluminado apenas pelo azul da televisão, tem poucos móveis. Uma cama desarrumada, uma cadeira de madeira onde repousa um despertador e um par de chinelos. Na porta, a figura estática de um homem.



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Da janela, observa a cidade. Tantas luzes, tantos sons, tanta gente. O suor escorre pelo rosto quente, contrastando o frio da garoa que cai, lá fora. Olha para a porta. Não há ninguém lá. Calça os chinelos, joga-se dentro de um roupão, e vai até a cozinha. Água! Precisa de água.



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Desliga a tv e senta-se na cama. "O celular!". Não. Não ligou. A madrugada vai alta, e não consegue dormir. Abre um livro, outro, outro. Olha-se no espelho. Abre o guardarroupas. Experimenta isso, aquilo, imagina-se dançando. Fica nu.



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Vai até o armário e procura o termômetro. "Devo estar com febre, não é possível". Não está. Abre o registro e deixa a água cair. Quente, afinal, não está tão desesperada assim. Deita-se na cama, molhada. A chuva parou, e pode-se ver a lua. Pega o celular. "Ligo?", pergunta-se. Não!



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Um pulo assustado o tira da cama. Sete horas. Uma mensagem: "Pensei em você a noite toda".



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O telefone toca. "Alô, E aí, Não tive coragem de ligar, Ai ai ai."




segunda-feira, 6 de abril de 2009

o início de tudo






Dizem que todas as coiasa têm um início. Pois bem. Este é o início de minhas aventuras no mundo das atualizações diárias, ou quase isso.


Aqui você vai encontrar crônicas sobre assuntos diversos, comentários sobre o que rola no meio in&out-telectual, críticas de música, cinema e arte. Sim, claro, tudo com uma boa dose de sarcasmo.


Obviamente, tudo dependerá do meu humor, que normalmente é bom, minha paciência, que é razoável, e minha disposição, que não é.


Entre, sinta-se a vontade!