
A voz misteriosa soou como uma prostituta sussurrando ao seu ouvido.
- Atenção, senhores passageiros. O voô 294 com destino a Nova York partirá dentro de vinte minutos.
Três malas, uma bolsa de colo e muito suor. Nenhuma paciência. O homem está correndo pelo aeroporto. Saiu de casa com três horas de antecedência, que a marginal transformou em uma hora de atraso. Por sorte, o avião também se atrasou, devido a chuva que castiga a cidade de São Paulo.
A fila do check-in é interminável. Por sorte, ouve-se um grito feminino pedindo que os passageiros de voôs internacionais dirijan-se ao guichê 17. Cinco passos apressados e João é o primeiro. Coloca cuidadosamente as malas sobre a balança, na inútil esperança de que a gentileza diminua os quilos a mais.
- Senhor, sua mala está 3kg acima do peso!
João abre a mala e retira de lá cinco quilos de farinha de mandioca, um presente infeliz para seu amigo nordestino, que mora em Boston. A mulher se assusta, quase chama a segurança, quando o homem empurra a mala para a esteira de bagagens. Num movimento felino, a atendente da um salto sobre a cadeira e cola a etiqueta de embarque na mala, que segundos depois, desaparece no buraco negro.
Duzendos metros separam João do portão de embarque. Agarrado em sua pasta, dispara pelo saguão como um quater-back nos play-offs finais do futebol americano. Subtamente, percebe que está sendo seguido por um cão-guia, que corre desesperadamente atrás dele, arrastando seu dono. Apesar na situação inusitada, João não se dá por vencido. Acelera!
Ao entrar no avião, não sente suas pernas. Está exausto e convencido de que é impossível competir com um animal de quatro patas. Por sorte o canino o acertou pela retaguarda, onde estava a carteira. Não houve danos físicos, só materiais. João acomoda-se feliz na poltrona apertada, refletindo sobre os fatos. Lembra-se do famoso ditado: "vão-se os instrumentos, ficam-se as bandas"!!!
Sob forte chuva, o 737 levanta voô. Em menos de dois minutos já estão acima das nuvens carregadas. Pode-se ver o sol, brilhando forte no horizonte. O comandante explica que terão uma viagem tranquila. Após algumas horas de voô, almoço.
João está ansioso e faminto. Na pressa da saída, não teve tempo para o desjejum. Ao comprar a passagem já deixou especificada a sua preferência pela comida vegetariana.
- O que é isso?
- Seu almoço, senhor - respondeu a comissária, rindo secretamente.
- Tudo bem. Mas o que é isto, especificamente?
- Salada de acelga, cenoura e rabanetes.
- E esse negócio verde?
- Vagem, senhor. Algo mais?
- Eu que pergunto. Há algo mais para comer? Digo, fora a vagem?
- Mas foi o senhor quem pediu vegetariano.
- Sim, mas eu não trouxe meu coelho. Qual é o seu nome?
- Florinda. O que o senhor gostaria de comer?
- Biscoitos!





