
O homem segura, trêmulo, o microfone. Já fizera isso tantas vezes, mas sempre fica nervoso. Afinal, o público nunca é o mesmo. Pergunta-se porque escolheu aquela música. Jamais conseguiu a performance ideal. É muito aguda pra ele. Mas agora já foi. A música já começou. A plateia o observa atentamente, como se esperasse um único vacilo, para então, cair na gargalhada.
A introdução, que nos ensaios parecia infinita, acaba em dois compassos. De repente, depara-se com um problema prático: qual era mesmo a primeira palavra da música? Pensa em cochichar baixinho para alguém próximo, perguntando a letra, mas já não há tempo suficiente. A deixa já foi. Perdeu a entrada. Mas tudo bem, a música é lenta. Ele pode perfeitamente retardar a entrada. Depois dará uma corridinha disfarçada para alcançar o andamento e pronto. Já viu tantos cantores fazerem isso, e ninguém repara. Alguns acham até bonito. Dizem ser charmoso. Não importa. Eles entram depois, mas entram com a palavra certa. "Qual era a palavra? Que coisa!". A situação piora. Um gordinho na primeira fileira percebe seu nervosismo e começa a sorrir maldosamente.
- Amor! Era amor! - pensa ele. - Ou pelo menos tinha a ver com amor. Amor fraternal, maternal, platônico.. que amor que era? Mas e depois de amor? Casamento? Não faz muito sentido. Não deve ser amor. O amor nunca me deixaria numa situação dessas.
- Composta.. era uma palavra composta! Algo do tipo: ajuda-me, salva-me, tira-me, segunda-feira, beija-flor, guarda-roupa... aaaaaaaahh!
Começa a pensar em algumas alternativas. Quem sabe inventar uma letra na hora? É arriscado, mas pode funcionar. Mas, que letra? Já não está lembrando da letra que sempre cantou, que dirá uma que nunca ouviu. Desiste. De repente pedir à congregação para que cante junto com ele. A igreja pronuncia as primeiras palavras, ele refresca sua mente, todos participam e ficam felizes. Lembra-se então que é a primeira vez que vai àquela igreja, e que dificilmente alguém conhecerá a canção.
Finalmente, chega à conclusão de que a melhor saída é jogar-se no chão, fingindo uma parada cardíaca. Quem sabe após retorcer-se e babar, viriam à tona as primeiras palavras? Caso não lembrasse, iria direto para o hospital, e nunca mais voltaria ali. Quando já se preparava para sair correndo, um raio, seguido por um apagão!
O som parou de funcionar, deixando-o sem a amplificação necessária para o alcance das últimas fileiras. Um típico "uuuuuuuuhh" foi dado pelos presentes, evidenciando a presença de estudantes dentre os espectadores. O play-back parou com a falta de energia. Alguém gritou lá do fundo que a luz iria voltar em instantes.
Após alguns minutos às escuras, a luz se faz presente. Todos olham envergonhados para o palco. O pastor vai até o cantor pedindo desculpas pelo ocorrido.
- Perdão. O raio nos pegou de surpresa.
- Que isso, pastor. Essas coisas acontecem - respondeu, tentando esconder o alívio enquanto limpava o suor.
- Peço desculpas, mas nosso aparelho de som queimou. Um fusível. Você pode imaginar? Não, ele não podia imaginar! Porém, tratava-se de uma igreja. Nada mais natural que um milagre, pensou, enquanto jurava a si mesmo nunca mais cantar em público.
- Mas você não veio de tão longe para não cantar. Nós daremos um jeito de...
- Claro! Alguém tem um hinário?!

Muito boa, jito!
ResponderExcluirIsso já me aconteceu... many times. Mas o milagre de acabar a energia elétrica nunca me salvou... Embora tenha adiado a angústia por alguns instantes.
;)
Sensacional!
ResponderExcluirFiquei com aquela sensação de agonia que antecede a primeira sílaba da palavra esquecida.
òtimo!
Eu tenho uma tática: Baixar a cabeça e começar a chorar!heheheh
ResponderExcluirMuito bom!